Os novos medos

Não é apenas saber se a inteligência artificial será capaz de pensar por nós. É saber se nós, pouco a pouco, estaremos dispostos a deixar de pensar por nós próprios.

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Teresa Portal

Ao terror atmosférico de uma Terra descontrolada (terramotos, cheias, deslizamentos de terras, chuvas torrenciais), de que o homem só se lembra na altura das catástrofes, seguem-se dois novos: a ameaça da III Guerra Mundial e a destruição do planeta pela IA.

E que fazemos nós?

Os Velhos do Restelo apregoam as desgraças, fazem previsões, mas o homem nada faz ou faz muito pouco. Quantas vezes são mais as iniciativas privadas, mesmo individuais, que dão, provisoriamente, uma solução para o problema, que deveria preocupar governos e instituições.

Tenho publicado no Facebook o que vou vendo – garrafas que se desfazem, as redes nos esgotos que evitam que muita coisa seja despejada no mar… e mais algumas soluções que mostram que alguém se preocupa.

Sempre me interessaram as coisas históricas, as científicas, a História e tudo o que me rodeia. Quero saber como chegamos aqui e para onde vamos.

A guerra nuclear não me assusta. Não creio que aqueles dois EGOS sejam tão desvairados que destruam o planeta de uma vez para sempre. Espero que alguém aja antes desse caos. A ONU? Lembro-me, a propósito, de uma notícia que li há algum tempo sobre Hiroshima e Nagasaki. As bombas provocaram uma enorme mortandade imediata, mas os seus efeitos não terminaram no momento da explosão. A radiação e as consequências posteriores fizeram muitas outras vítimas durante anos. A bomba, afinal, não mata apenas no instante em que explode.

Quanto à IA, muito embora já tivessem ocorrido ataques cibernéticos pela IA descontrolada, não obedecendo a controlo humano, acho que, se todos estiverem atentos, podem verificar o que a IA vai fazendo.

Como todos, já inseri um texto na IA para ver as repetições e até apreciar as sugestões dadas. Começa tudo muito bem, mas se se teimar, o algoritmo, subtilmente, procura levar-nos para aquilo que ele pretende escrever e não para o que nós, realmente, escrevemos ou pretendemos escrever.

É uma espécie de persuasão silenciosa.

Não me assusta a IA, pelo menos esta. Claro que eu sei português e nunca me passaria pela cabeça pedir à IA que me fizesse um texto. Ou sou eu que escrevo ou não.

Também já ouvi o “boato” — será mesmo boato? — de que existem livros escritos por inteligência artificial e publicados através da Amazon. Não me surpreenderia. Se a máquina já consegue produzir um texto que parece humano, alguém acabará sempre por querer ganhar dinheiro com isso.

Tenho mais medo às Fakenews que nos invadem por todo o lado e nos assaltam as redes sociais e até criam novos perfis. Há perfis que não reconhecemos, mensagens que nunca pedimos, pessoas que não existem e outras que existem, mas não são quem dizem ser ou nos insultam fazendo-se passar por outras pessoas, ou nos oferecem dinheiro ou fortunas porque estão a morrer. E isso é muito mais perigoso do que uma máquina que me ajuda a procurar uma palavra ou a imaginar uma imagem.

Com a IA, por enquanto ainda me entendo, e uso-a muito para me criar imagens, embora aí se possa já observar como o algoritmo tenta fazer o que quer e não o que queremos. Damos as instruções, explicamos, repetimos, corrigimos… e a imagem aparece conforme as nossas indicações — ou conforme aquilo que à máquina lhe apeteceu entender.

Talvez seja essa a verdadeira questão.

Não é apenas saber se a inteligência artificial será capaz de pensar por nós. É saber se nós, pouco a pouco, estaremos dispostos a deixar de pensar por nós próprios.

Porque a máquina pode inventar muita coisa.

Mas quem lhe dá o poder somos nós.

 

Maria Teresa Portal Oliveira

(cronista, romancista, contista, poetisa)

 

Foi aprovado na Assembleia Municipal de 28 de setembro de 2026 o novo Plano Diretor Municipal de Guimarães (2ª Revisão).

As grandes mudanças ambientais precisam de políticas públicas, investimento, empresas responsáveis e inovação. Mas também se constroem nas pequenas decisões que repetimos todos os dias.